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A nova política de uso do Google me fodeu legal, agradeçam a ele quando virem o que aconteceu com os posts antigos.

Acho que me perdi - Epílogo




O sol brilhava como nunca. Eu estava admirando um casal de crianças correndo pelo terreno da casa, sorrindo feito um bobo alegre, quando sinto uma puxada violenta na minha orelha direita. Aquela bela mulher tinha saído de dentro da casa e foi me dar um sermão sobre coisas da vida.

- Quando você vai arranjar um emprego!? - Perguntava Yumi, furiosa. - As contas tão se acumulando, não vamos ter como "dar um jeito nisso" como você sempre diz!

Eu dou uma gargalhada, e as duas crianças param de correr e olham para nós.

- Papai tá brigando de novo! - Fala a menina.

- Tá não! - O menino grita.

Eu faço um "ei!" e chamo os dois pra perto.

- Olha, ela só está irritada porque deixei o último emprego sem necessidade. Ela só quer o nosso bem, por isso está irritada comigo.

Faço um cafuné em cada uma das cabecinhas e os mando voltar a brincar, me virando para Yumi.

- Eu vou conseguir um novo emprego, só ter um pouco mais de paciência.

- Contas não tem paciência, garoto! - Ela esfrega a de luz na minha cara, que estava por volta de metade de um salário mínimo. - Não sei como você consegue gastar tanto, francamente...

- Estou registrando tudo o que lembro que aconteceu lá. Como quando cheguei, por quem fui recebido, a sua vida...

- A minha!? - Ela me bate, de leve, claramente envergonhada. - Tire, tire agora mesmo!

Eu rio mais ainda com aquela atitude, e ela começa a rir também. Ela para de me bater e senta ao meu lado, apoiando a cabeça no meu ombro.

- Ei, você não acha que esse final é injusto? Não é algo feliz demais, ou açucarado demais? - Ela me pergunta.

- Sim, é algo semi-perfeito, do tipo que pessoas se matariam pra ter. Eu sei o valor que ele tem, de ter você perto de mim, de estar vivo e de ter experimentado aquilo tudo. Eu cresci como pessoa, sei o que devo fazer de agora em diante: te amar e respeitar até depois da morte.

Yumi cora um pouco, e vira a cabeça pra me olhar.

- Sério mesmo?

Beijo a testa dela por estar mais perto.

- Sim, claro. Uma mulher tão linda me dando mole assim do nada, acha que vou deixar passar?

Eu começo a rir de novo enquanto ela me bate com o chinelo que usava, por causa dessas bobagens que eu falo. O casal de crianças fica rindo lá longe e apontando pra gente. Logo, os pais deles os chamam e eles se despedem, indo para suas casas. É, eles me chamavam de papai por eu parecer com o pai deles, ou algo do tipo.

- É um saco que eles tem os nomes que eu gostaria de dar pros meus filhos. - Falo depois que Yumi se acalma.

Ela me olha com uma cara de "é comigo?".
 
- O que quer dizer?

- Quero dizer que, um dia, gostaria de ter filhos.

- Você é extremamente irresponsável, não tem como isso dar certo.

Faço um gesto exagerado, colocando uma mão no peito e as costas da outra mão na testa, como se tivesse sido atingido mortalmente e estivesse morrendo.

- Oh, que cruel! A crueldade de uma bela mulher torna tudo tão...

- Deixa de ser tonto. - Ela me acerta na cabeça com uma revista enrolada.

Me ajeito na cadeira, aprumo a roupa e olho sério para ela. Obviamente, Yumi fica com medo, esperava que eu fosse falar algo que ela não ficaria feliz em recusar.

- Eu te respeito, vim pra cá contigo porque você me pediu pra te levar junto. Nós não temos nenhum relacionamento amoroso, e nem pretendo te pedir para ter filhos comigo, mas quero saber uma coisa: depois de tantos meses juntos e longe de sua terra natal, você acha que fez a escolha certa?

Yumi senta na cadeira mais próxima, olha para o chão, coça a cabeça e depois me fita com aqueles olhos...

- Já esqueci como era lá.

Surpreso, abro a boca pra falar, mas ela interrompe.

- Sim, é verdade que não somos amantes e que eu te pedi pra sair de lá só por curiosidade, mas estamos vivendo no presente. O passado ficou pra trás, o que você viu naquela "casa do futuro" nunca aconteceu aqui conosco, então não se culpe ou martirize por algo que nunca fez, tá bem? E talvez, quem sabe, não começamos a namorar...

Agora é a minha vez de ficar vermelho feito um tomate. Só estávamos lá como companheiros de quarto, e ela me diz aquilo.

- Ué, depois de me cantar quase o dia todo vai ficar de vergonhinha agora, senhor? - Ela me cutuca, me tirando da confusão.

Os dias que se passam são mais felizes e normais do que eu pude imaginar. Eu vivia num estado de dormência, viciado num mundo virtual que me prendia mais a cada dia, fui jogado numa terra hostil e maluca, que me mostrou como as coisas funcionavam de verdade, vislumbrei futuros alternativos em uma situação bizarra, o que me deixou incrivelmente transtornado, e finalmente vim parar aqui, no que parecia ser o verdadeiro mundo real. Yumi veio comigo e eu nunca acredito quando ela diz que foi por simples curiosidade, sempre fico com uma pulga atrás da orelha pra saber o por que dela tomar essa decisão... Acho que estou pensando demais.

Enfim, nossas vidas foram interligadas pelo destino, e só ele sabia o que estava pensando. Se foi uma boa ou má escolha, não é da minha conta, Yumi é uma ótima pessoa e eu mesmo me sinto mais capaz do que nunca para enfrentar os desafios que um casal como nós irá enfrentar.

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